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sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Guerra Fria e a participação dos EUA * Eric Robsbawm - Inglaterra


A Guerra Fria e a participação dos EUA
 
Pode-se

considerar como início da Guerra Fria, o período logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, onde os exércitos soviéticos e ocidentais se encontravam ocupando territórios na Europa arrasada e era preciso uma retirada. Assim, se demarcou como área de influência de cada parte, a linha de ocupação das tropas ao fim da guerra. Os Estados Unidos assumem o papel predominante do lado ocidental, na defesa do sistema capitalista e democracia liberal como ideologia em sua esfera, ao passo que a URSS assumem seu lugar como potência na defesa da ideologia socialista soviética para a sua.
Após essa difícil, o mundo viveu um período de relativa estabilidade, com ambas as superpotências evitando conflitos entre sí. Este período se estendeu até os anos 1970, baseando-se no receio de ambas as partes, de  um conflito nuclear quer seria devastador para todo o mundo. Esta constante ameaça, esse clima de iminente conflito a qualquer momento, deixava receosas todas as populações mundiais, que temiam sofrer por tabela, com as bombas atômicas que cortariam os céus.
Se observa nos Estados Unidos, uma grande preocupação não apenas em se evitar uma recessão interna, mas em manter os europeus ocidentais longe do poderio soviético, a fim de preservar mercados, corações e mentes naquele continente. Enquanto os americanos se usava da “política de contenção”, visando se proteger de uma hegemonia da URSS no futuro, os soviéticos se preocupavam com a hegemonia presente dos EUA. Devastada pela guerra, a União Soviética se encontrava na posição defensiva e muitas vezes dependente de concessões da potência rival. A retórica de um adversário implacável visando invadir e destruir o modo de vida dos americanos era muito importante para seus líderes, que precisavam continuamente de votos para permanecer no poder. Essa eterna preparação para guerra propiciou também a criação de “complexos industrial-militar tanto nos Estados Unidos quanto na União Soviética, garantindo crescimento econômico, empregabilidade, comércio exterior de armas e fornecimento de matéria-prima por parte de aliados mais empobrecidos.
A partir dos anos 1970, os EUA enfrentam um período econômico difícil, devido a crises como a do petróleo, ao mesmo tempo em que observam o relativo crescimento da URSS e revoltas populares no terceiro mundo, que se alinhavam a potência rival. A Guerra Fria toma então uma nova configuração, onde os americanos adotam uma postura belicista, gerando uma corrida armamentista e um retórica dura contra os soviéticos, que responderam da mesma forma. Essa etapa se estendeu até que o líder Soviético no poder, Mickail Gorbachev, aceitou acordos para barrar a corrida armamentista e o ocidente confiou na veracidade dos fatos. A URSS, estava esgotada pela produção militar e precisava de recursos para tentar solucionar crises de bem estar dentro de seu território. Para os americanos, foi uma vitória, que se cristalizaria com o desmembramento da União Soviética, levada a cabo por seus líderes burocratas e o fim dos países de partido único no leste europeu.
Os Estados Unidos, com extensa propaganda a fim de convencer seus cidadãos de que havia se alcançando a destruição do inimigo, aproveitou o fim do modelo de uma estado que garantisse bem estar social para impor a suas populações medidas neoliberais, pregando o estado mínimo e a redução das contas públicas ao custo da eliminação de direitos sociais. O mesmo foi seguido pelos britânicos e por relutantes europeus, embora esses tenham mantido várias características dos estados sociais como uma marca a diferenciar seu capitalismo do capitalismo liberal americano e britânico, até mesmo por que suas populações não aceitariam a súbita retirada de direitos e geraria uma grande convulsão social.
Sem a propaganda do poderoso inimigo do leste, as elites políticas dos EUA se dedicaram a propagandear e impor o modelo neoliberal pelo mundo, até que surgiu um novo inimigo para combater e mobilizar a opinião pública: o terrorismo. Esse inimigo que vive nas sombras possui a vantagem de poder ser qualquer um, basta que os governantes americanos o classifiquem como tal.
Referências:
HOBSBAWM, E., A era dos extremos. 2 edição. São
Paulo: companhia das letras, 1995. Pág. 223-252.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Cronologia do Golpe * Prof Fernando Horta - RJ

Cronologia do Golpe


 Os fatos, isoladamente, parecem não ter relação entre si, mas olha só o que acontece quando colocamos todos eles juntos...

Cronologia do golpe:

2007 - Descoberta do pré-sal, estimada em 20 trilhões de reais;
2008 - Derrocada do modelo capitalista e  prejuízo de 22 trilhões de dólares aos estados.
2009 - começo obscuro e desconhecido da lava a jato com orientação dos EUA.
2010 - Lula paga toda a divida externa brasileira e acaba com o dinheiro fácil para os bancos estrangeiros.
2010 - Crise do Euro e inicio da quebra de vários países europeus.
2009-2012 - discussões e votação do marco do pré-sal totalmente nacional e verba para educação
2012-2013 - Espionagem da NSA sobre a presidenta Dilma e os principais diretores da petrobras.
2013 - Dilma derruba a taxa basica de juros Selic para o menor patamar da história: 7,25%.
2013 - IBGE registra pela primeira vez o pleno emprego no Brasil, ou seja, menos de 5% de desempregados. (4,75%).
2013 - passeatas contra o "governo" fazem cair a aprovação de dilma de 80% para 40% em menos de 3 meses.
2014/mar - primeira fase da lava a jato.
2014/out - Reeleição Dilma
2014 - criação das facções: MBL / Vem Pra Rua / Revoltados online / Nas Ruas.
2014-2015 - Eduardu Cunha paralisa o congresso e impede Dilma de governar.
2015 - Dada a incerteza política empresários param de investir, mídia cria e alimenta a narrativa da crise.
2015/set - PEC da bengala impede dilma de indicar novo membro para o STF.
2016 - lava a jato ataca o núcleo do partido no poder.
2016 - impeachment de Dilma, STF se cala
2017 - morte de teori zavascki/indicação de tucano para o STF, mudança no marco regulatório do pre-sal, fim da previdência, das leis trabalhistas, da educação universal e do SUS, fatiamento e venda da Petrobras.
2017 - comandante militar moderado sofre com problemas de saúde e sinaliza que vai se afastar. Linha dura cotada para assumir
2017/maio - Projeto de lei adiando eleições (possivelmente) para 2020.
2017/maio - exercicios militares "conjuntos" entre Brasil e EUA na amazônia.
2017/abril-maio - prisões de manifestantes pelo brasil afora, chacinas de índios, ataque a lideranças sindicais 

Entendeu?

Fernando Horta - Professor de História da UNB

domingo, 2 de abril de 2017

O Fim Do Emprego * Wladimir Safatle - SP

O Fim do Emprego

Nunca na história da República o Congresso Nacional votou uma lei tão contrária aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma tão sorrateira. A terceirização irrestrita aprovada nesta semana cria uma situação geral de achatamento dos salários e intensificação dos regimes de trabalho, isto em um horizonte no qual, apenas neste ano, 3,6 milhões de pessoas voltarão à pobreza.
Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como trabalhadores terceirizados ganham, em média, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais do que os últimos. Este é o mundo que os políticos brasileiros desejam a seus eleitores.
Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua própria eleição em 2014, defendeu reforma parecida. Ninguém prometeu a seus eleitores que os levariam ao paraíso da flexibilização absoluta, onde as empresas poderão usar trabalhadores de forma sazonal, sem nenhuma obrigatoriedade de contratação por até 180 dias. Ou seja, esta lei é um puro e simples estelionato eleitoral feito só em condições de sociedade autoritária como a brasileira atual.
Da lei aprovada nesta semana desaparece até mesmo a obrigação da empresa contratante de trabalho terceirizado fiscalizar se a contratada está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Em um país no qual explodem casos de trabalho escravo, este é um convite aberto à intensificação da espoliação e à insegurança econômica.
Ao menos, ninguém pode dizer que não entendeu a lógica da ação. Em uma situação na qual a economia brasileira está em queda livre, retirar direitos trabalhistas e diminuir os salários é usar a crise como chantagem para fortalecer o patronato e seu processo de acumulação. Isto não tem nada a ver com ações que visem o crescimento da economia. Como é possível uma economia crescer se a população está a empobrecer e a limitar seu consumo?
Na verdade, a função desta lei é acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito não por meio do fortalecimento de laços associativos de trabalhadores detentores de sua própria produção, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precarização absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual não há mais garantias estatais de defesa mínima das condições de vida. O Brasil será um país no qual ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado, ninguém irá tirar férias. O engraçado é lembrar que a isto alguns chamam "modernização".
De fato, há sempre aqueles dispostos à velha identificação com o agressor. Sempre há uma claque a aplaudir as decisões mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe média que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dirão que a flexibilização irrestrita aumentará a competitividade, que as pessoas precisarão ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes terão seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficará lindo se deixarmos livre a divina mão invisível do mercado.
O detalhe é que, no mundo dessas sumidades, não existe monopólio, não existe cartel, não existem empresas que constroem monopólios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, não existe concentração de renda, rentismo, pessoas que nunca precisarão de fato trabalhar por saberem que receberão herança e patrimônio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo destas pessoas é uma peça de ficção sem nenhuma relação com a realidade.
Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivesse, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.
Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifestações contra a reforma da previdência. Em qualquer país do mundo, não haveria veículo de mídia, por mais conservador que fosse, a não dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A não ser no Brasil, onde não foram poucos os jornais e televisões que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma prática de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobilizações populares por Diretas Já!. O que é uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, não estão do lado do jornalismo.

FSP, 24.03.2017
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